domingo, 3 de abril de 2016
as horas serão sempre submersas
sempre horizontais:
o tempo aberto em flor
ao ventre que blinda da luz e flui pele adentro
como um parasita cego e sôfrego:
perfura o engodo do nascimento já amorfo
na diluição de si-invertebrado:
o hálito que ressoa é o
deslize das órbitas pelo espelho horário
que não um rastro de terra deixado sob os séculos:
o mofo: o toque das pálpebras acendendo o precipício
no que revela passadouro:
logro o impreterível na intenção de fixar o rosto
*
as horas não sabem contar mentiras
como as imagens que se esboçam na pupila
mas adivinham a desordem de um pássaro
enquanto comungam da banalidade
terça-feira, 29 de março de 2016
II
se a voz fosse elipse e respiração, o silêncio na velocidade
da próxima palavra,
o antro comungado de duplas pupilas,
fosse elipse em diário hesitar da ascensão contra o teu céu:
quando corpo que a escória emoldura e abisma /
ágil de espinhos na vigília de qualquer desabamento
no cume que perfura a lucidez do atraso, hora que arde na eternidade,
boca na língua, céu filhote de precipício ou a sina polida,
pó daquilo muralha – preciso despir o verbal –
de modo e agouro que rasgue a infância submersa ao sono,
o olho escancarado à estirpe em cicatriz – preciso verbalizar o despido –
na caixa torácica que pela fome logrou um órgão vivo,
nela que vivo a inabilidade em conduzir a palavra dita,
vingar uno e inteiro edifício – preciso de lanternas –
remendo-me no acaso, um filme, o monocromático aceno da posteridade
e desosso o vazio furtado àquilo que adormece
/
o vazio na ruminação da ruína
/
o vazio no sonido que sobe aos ouvidos
/
o vazio nas espinhas que são de onda quebrada
enquanto simulo arfada e pulverizo a memória
entre os dentes
da próxima palavra,
o antro comungado de duplas pupilas,
fosse elipse em diário hesitar da ascensão contra o teu céu:
quando corpo que a escória emoldura e abisma /
ágil de espinhos na vigília de qualquer desabamento
no cume que perfura a lucidez do atraso, hora que arde na eternidade,
boca na língua, céu filhote de precipício ou a sina polida,
pó daquilo muralha – preciso despir o verbal –
de modo e agouro que rasgue a infância submersa ao sono,
o olho escancarado à estirpe em cicatriz – preciso verbalizar o despido –
na caixa torácica que pela fome logrou um órgão vivo,
nela que vivo a inabilidade em conduzir a palavra dita,
vingar uno e inteiro edifício – preciso de lanternas –
remendo-me no acaso, um filme, o monocromático aceno da posteridade
e desosso o vazio furtado àquilo que adormece
/
o vazio na ruminação da ruína
/
o vazio no sonido que sobe aos ouvidos
/
o vazio nas espinhas que são de onda quebrada
enquanto simulo arfada e pulverizo a memória
entre os dentes
fotograma de estirpe
o visto abrasado pela tua fissura inda me lembra a vigília sob o adoecer dos horizontes espantados; do que medeia entre o torpor genuíno das agonias contidas entre os sonos que separam os dias; a pálpebra é uma cratera adiantada ao ofício dos insones; durmo com elas partindo a regular percurso o embargo das árvores repartidas; e é um sono, um ardil de ancestralidades ditas que me reclama, que desentope as latitudes dos teus solos e lá abrigam a combustão contida dos astros; abraso-te pra que não fujas entre a divisão dos galhos, pra que sirva o atalho ao acúmulo de céu, mas falho: um ruído disperso sobrevoa tua fuga como se um confronto selasse a escória do ontem; um lance dos exílios figurados em cicatrizes; tento em ti protelar o meu gonzo esquivada entre a elevação dos anos; há altura, há convulsões de papel, há um precipício em descida; falho: como te acomodar sob a evasão repentina do abrigo? selar-me ao infinito? imitar-me o espelho tecido com os cacos do teu barco obsessivo? o meu mapear transgride as três mil guerras do aéreo-dito como um número que sucede o baluarte dos vencidos; grito e o gritar me entope o dilúvio que vaza pelo chão; adio o que ternura convencer a sina colapsada com o atrito das mãos levadas aos olhos; uma respiração hesitada: tardar é um intervalo que amplio.
agosto/2015
quinta-feira, 17 de março de 2016
I
um mar, que partisse do mais áspero rastro de saliva
diluindo o alcance do pincel
que não sei por onde corre a luz desviada pelas quatro portas do instante
do mínimo refúgio nas pálpebras como um códex impenetrável de hábil erro perdurado
pela mão
se hábil verbo lhes pudesse rebeldia contra a apreensão dos gestos
ou driblasse a ordem plástica dos signos que talham e falham – na matéria – o firmamento
(contra a fagulha sucumbida ao equívoco)
um mar, que grunhisse a imperfeição do teu
enfim-semblante iluminado pelo caos
diluindo o alcance do pincel
que não sei por onde corre a luz desviada pelas quatro portas do instante
do mínimo refúgio nas pálpebras como um códex impenetrável de hábil erro perdurado
pela mão
se hábil verbo lhes pudesse rebeldia contra a apreensão dos gestos
ou driblasse a ordem plástica dos signos que talham e falham – na matéria – o firmamento
(contra a fagulha sucumbida ao equívoco)
um mar, que grunhisse a imperfeição do teu
enfim-semblante iluminado pelo caos
ancestral
ouvir o barulho dos aplausos na
televisão que era réplica da chuva quebrando lá fora
era chuva, embora, o toque
múltiplo entre as mãos
movendo-se no ar feito
intempérie
o parentesco entre a palma da mão e a chuva
aquela música de milhares de
anos gravada no silêncio de uma caverna
uma infinidade ainda
embrião
revivida num só corpo de som –
respirando
*
estar sempre à deriva de uma
alucinação
enquanto no que brevemente for
sangue e vazão pelas enchentes dos corpos,
o rebento da unidade que
ressurge lógica mas quebradiça
a genealogia dos frutos
apodrecidos nas vagas duras recompensas
enquanto a mão delineia a cara
que finda e revela dois lados
numa só piscada
estar sempre à mercê de uma
submersão
enquanto resistência aos fios
que suturam na água, no ruído ao acaso,
revelar o pavio pela fuligem que foge de um ímpeto
o vislumbre é vertigem quando
em todos os sentidos se sonha
quando o ofício da penumbra na
candura silencia o escasso
enraizado ao abismo / um imundo
desmesurado
como colar as retinas àquilo
que tudo que é fuga adia
por dentro descerram-se os
eflúvios que crescem contidos
nas raízes do mundo:
ar que guardo por meio-século
no pulmão esquerdo
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
mercúrio
a correnteza sobe entre pisadas férteis: tivesse um raio dito promessa entranhado à garganta como batimentos rasgados pela elevação do céu ao sono, o corpo em estado de fotografia, a quina, aquilo já disperso pelo intervalo entre lançar-se divago e o pouso; um pretexto ao credo então submisso à falência dos frutos; volvido ao finito, areia, dinamitado; tivesse a captura dos maços, um resvalo alheio à vastidão dos polos distendendo-me em fissuras, pela voz, a falha do alicerce, enfim, suprir a desordem pelo hábito de se ater ao espanto, ao canto que margina falso a blindagem do deserto; areia, areia, tivesse na teia dos pensamentos fulminados (poeira!) a proteção dos roupantes rotos que vertem o porvir; sobe a concretude da pisada em índices remotos pelo em mim; é em mim que localizo a plataforma, o nervo pulsado em imagens que quebram pela memória, aérea, memória pulsando translúcida como movimentos encerrados diante de todos os espelhos; o em mim é translação; partida que sucede a monotonia das idas, as manhãs repercutem artérias implodidas, o abrigo é pousar inda em vida; tivesse eu, ele, o pouso, o comprimento exato para moldar-te terreno na veia roída pela inércia das horas; nas horas que se dispersam, aniquila-se o pensar como suporte da fala; pela tessitura em vão, escapa, umidifica-enxuta-chuva-solidão; tivesse a loucura dos muros que marejam a conveniência dos gestos; é alheia a inquietude contida à lassidão das rajadas; as manhãs redemoinham estradas: tivesse o crivo, a veia, o perpétuo se além-poeira arrancasse o torpor ao incêndio nos olhos; areia, areia, desordem aérea, mercúrio ao avesso de mim.
Assinar:
Postagens (Atom)