segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Os clamores de vinte e quatro horas após o solstício de verão


        Antes de dar início à representação imprevisível do que ontem, hoje e na Sexta desregraram e desagregaram meus planos para o auto-sacrifício de Agosto, queria deixar-lhe aqui uma ponta, um aviso do que, na verdade, anteriormente não havia percebido o quanto era relevante.  A circunstância indiscutível de que o tempo não estaria apto de levar consigo o inaudito, o cinismo das tardes foscas e palpáveis de Julho, as cartilhas, os monólogos e a perspectiva que sustentaria as horas em branco fora abandonada pelos mais sortidos mistérios e noticiários jupiterianos. E nós abandonamos-a sem ao menos esperar pelo alvorecer primaverense suscitado entre as nuvens de dióxido de carbono nas vias fosforescentes de Domingo. Acontece que entre o "esperar" e  a quinzena e meia que abisma-se nos relógios de pulso e ainda retêm em si a beatitude infame — os pulsares e os clamores, existe uma grande aversão de intervalos e excrecências que sufocariam-nos e talvez ambos estivéssemos muito distantes em estrutura corpórea e abstrata em cerca de instantes.
      Queria grafiticamente deixar esta nota para lembrar-lhe que apesar do círculo de monotonia e inaptidão estarem prestes a sucumbir nossas faces dúplices e a eternidade  dita antigamente como temível e onírica está indubitavelmente cumprindo sua sentença como um ato intragável e ineficaz, somente em mim há aquilo que foi. Aquilo que inarredavelmente supriu minha própria perspicaz insanidade a qual despertara-me do que pensei está perdido e  toda madrugada surgia-me nas mais breves linhas do meu inconsciente. Aquilo que pôs-me em condições necessárias de tornar-me personagem do meu próprio sonho e sonho do meu próprio personagem.
         Não fora uma inadimplência da minha parte, muito menos da sua, meu amor. E a partir de agora não falarei mais usando o pretérito perfeito, porque não imaginas como recai em mim o peso de um erro. Mais do que contorcer minhas entranhas e fraturar meus membros fétidos, desregula todo o sistema laico e mental do "próspero" o qual espero que venha-me como a prévia e espero também que nenhuma sequer variante propunha-se à entrar em vista. Porque além da rotina mostrar suas garras e dedilhar vorazmente nossos pulmões impossibilitando-nos de inspirar e expirar o ar das vinte três horas e cinquenta e cinco da noite, a realidade existe exatamente para percebermos que há algo além disso e é lá que muitos se perdem.
        Talvez numa Quarta-feira encontrarei-me ao meio-dia em meio a um congestionamento de vias nas avenidas mais movimentadas da cidade onde as buzinas estremecem e ecoam nas esquinas, os semáforos sincronicamente saltam para fora de si antes mesmo do último automóvel ultrapassá-lo, os pedestres atravessam as rotas e tornam-se parte do retrato de um esquema de regularidade impecável. Centenas de pessoas que têm nos cordões de seu ego uma questão a ser respondida e o tempo não dão-lhe respostas, o tempo manifesta-se como uma dádiva incessante e repugnante.
        Eu, no mais trivial termo de mim mesma, sentada num banco de um carro inerte com a certeza de que ali nada poderia fazer para abandonar o tal instinto sem saída. As luzes do espetáculo circense beiram à alucinação abominável que aqueles cujo não vanecem a vontade pelo díspar e retórico restituem em demência sintetizando sua existência além de tais calçadas fusiformes e corrimões austeros. Eu, irresistivelmente, desejo a exclusão,  a exceção, a regalia de tamanha desgraça.
         Voltaríamos às dezenove horas e meia em via de ruelas afáveis cantarolando espasmos apoteóticos a sentir o cheiro da brisa multicolor de Setembro e ouvir o tamborilar do vento nos bambus apáticos, my crystal blue.  Também não ousarei mais a parafrasear usando o tempo futuro, além de tudo ou mais, tenho uma demasiada apreensão em relação aquilo que pode não vir. No ponto em que estamos, o futuro é uma incógnita e é por isso que vim aqui nesta Segunda-feira de um mês tão árduo como Agosto de 2012.
     E sim, querido, escrevo neste instante para informar-lhe que o medo consome cada espaço em vão dentro de mim e ele é vigente, pois nada está realmente concreto até agora. Necessito sempre de uma explicação, de uma medida, de uma orientação. Você fala de desistência, de rótulos vencidos e descrença de uma forma que, ao contrário do que podem pensar, sinto-me imensamente culpada como o bandido que acusa o pobre miserável para não ser levado à cadeia. A questão é: o pudor absorve de mim o poucos restos que sobraram desde a última vez em cognitiva penúria. Minha consciência não propicia mais dimensões para cobrir aquilo que transborda em minha alma e deixa-me exacerbada de mim mesma. 
       Indiscutivelmente, proponho-lhe uma nova prática para aquilo que uma vez conhecemos como utópico, postularei-lhe uma crença livre de alcorões, terços ou dogmas em via daquilo que sonhei uma vez. Correremos entre o circuito do tempo e o universo em direção à blasfêmia existente no vácuo de matéria negra e nebulosas esbaforidas. Talvez não seja eu capaz de tanto, mas saiba que procurarei vigorosamente nos interstícios das mais distantes galáxias os segundos em que deixei escapar ambos de nossos reflexos. Onde foi que nos perdemos, meu bem? Onde a transcendentalidade da linha que une desde minhas cutículas ao último fio de meus cabelos aos teus pairou ao ar? E sucumbiram nossa audácia, sem que ao menos sobrassem-nos extremidades elevadas e possantes o bastante para sustentar nossos ossos. Saiba que, além de tudo, a cada segundo sinto-me como no princípio do alvoroço e paradoxo que embalava-nos entre os resquícios de madrugadas lúdicas. E saiba também, que venho aqui para, embora prevaleço em constante irresolução em relação aquilo que torna o ar rarefeito, declarar o desatino de minha pouca virtude. E esta tornou-me parte do que há no mais profundo dos teus sonos. 


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