sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Petrific-árcere dos ratos

há nas caixas torácicas que se abrem no canto esquerdo dos teus olhos um empréstimo de chuva? um cadáver de estrela roçada pela corja de camicazes? um uivo? uma garantia de que a permanência dos atos alumiará entre desertos em mutação o êxodo dos vales? um vislumbre contra o perecível? contra todas as faces que desvanecem em penumbra, nas distinções vividas? uma civilidade análoga à fome? há na cartografia que se molda em tuas mãos o trâmite mais declive das trilhas esboçadas? uma privação tão banal às feras que tumultuam seus próprios cativeiros, que se debatem entre a rede de captura? justificativa ao atraso das manhãs, à cava das lápides em tuas esquinas? em tuas travessias fugidias, espaçados os percalços — sobretudo os lapsos e nevoeiros — rumo ao abocanhar do explícito? há na irreverência das horas um recorte ao sonho, sonho que não enverniza ou desteme a ferragem do porvir, senão emenda dias inéditos aos teus coágulos em contratempo? um ultimato? um corpo uma vez fração da anatomia dos ratos, mas deslize irreconhecível de disparadas em estopim? há no curso mecânico dos teus risos uma precaução dissimulada de tão abrasadora fissura? há nas ondas que se desfazem sobre a orla alheia um presságio de despedida? nas janelas que todas as noites se apagam? na janela do teu quarto cujo sol não escapa, cujas madrugadas simulam a égide de tudo que alvorece? no modo como os retratos-impressões-de-mil-revoadas prenunciam a ida? no alvoroço de pernas atravessando o elevador que carrega teu corpo de volta ao monumento interditado, mas nunca alceia o firmamento? na cessão da fala, no silêncio implodido, na voz que não se escuta (na escuta dos fantasmas)? na criatura caduca que se hospeda em teus quartos vagos, descansa sem fome e então parte pelas rachaduras no teto? há no ditado dos teus olhos quando cegos préstimos vazios de previsão uma dispersão do afeto? quando roubadas pelo sol tuas pálpebras descoladas, há nelas compreensão da alvorada? na repetição da tua última palavra, do teu último naufrágio, no teu último petrific-árcere, há? há resistência ao tempo?

3 comentários:

  1. cada palavra é ato, coisa perdurável e inconsequência assumida de significado, como tempo-corre que é momento e - intérmino -. tu, alcança. <3

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    1. Que, intempérie-sem-tempo, subverte a vastidão. <3

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  2. a poesia às vezes se torna comum num contexto basal, ainda que a dor individual se apresente personalíssima, mas há tantos códigos sobrepostos que suspeitamos o que nos é apresentado como corriqueiro - já perscrutamos todos os lados do amor; suburbano, rural, nacional universal ou se anulando do alto de pontes e através de cordas apertadas no pescoço, como se a nossa imaginação já partisse em declínio... há que se erodir montanhas imensas só para se ter um significado honesto - talvez morrer mais que tres vezes, correndo o risco de nossa psiquê adquirir nova imunidade, onde a primeira morte já não basta.

    tudo que se diz tem travas, defesas, contracorrentes, discursos, perspectivas, angulos e eixos e mesmo os espaços bucólicos, espalhados ou exilados em areas regionais, com folclores fantasticos - serão recebidos como mecanismos para abrandar nossa rotina - porque nossa condição humana nunca suportou a fantasia - sua construção - a chuva que embarca nossos prantos e que não toca o chão se originou do tempo onde caminhar e estar de pé era por si um acontecimento. mas este tempo nunca foi o passado, jamais será o futuro - é sempre uma interminável presença. E que importa se isto é uma alegria ou tristeza? Chega um tempo, depois de cansar não sei quantas vezes (e nisto perder de vista a própria dinâmica da exaustão), onde a sabedoria suposta há muito esquecida, relaxou a musculatura em nossos rostos, olhando tudo com uma indiferença que eu não gostaria que fosse enunciada como santa. como fazer para guardar esta coisa que não tem nome?


    marina tsvetaeva - excertos [trans. ramonlvdiaz]

    "Eu vou achar em meus versos tudo aquilo que não há em minha vida!"
    Я найду в своих стихах Всё, чево не будет в жизни!
    [Serdtse, plameni kapriznei... (1913)]

    "Se a voz é dada a ti, poeta, todo o resto é arrancado"
    Ибо раз голос тебе, поэт, Дан, остальное—взято.
    [Est' schastlivtsy i schastlivitsy... (1934)]

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